¿Qué lecturas os seducen más?

Mostrando entradas con la etiqueta Ronie von Rosa. Mostrar todas las entradas
Mostrando entradas con la etiqueta Ronie von Rosa. Mostrar todas las entradas

lunes, 1 de noviembre de 2010

Prosas escogidas (VI): Ronie von Rosa




A bicicleta
(relato en portugués)


Não. O tempo não estava no movimento. Ele pensava. O tempo estava na bicicleta. Imóvel encostada ao muro.
Sim. O movimento era apenas ilusório, o tempo era além dele. Era imobilidade. Sim.
O muro estático e a bicicleta plantada em suas costas. Sustentação tácita. Amparo. O verbo já não existia. O verbo era distância. De fundo o azul chumbo de um céu imóvel como o tempo. Assim como ele. Estático.
Os aros da roda já não deliravam pelas estradas, mas uma massa de tempo enlouquecida se embrenhava imperceptível por eles. Silencioso enroscava-se no metal da bicicleta, retorcia-o. E ele percebia.
O tempo estava. Antes do movimento. Antes do verbo. Antes da representação do movimento. Antes da representação da fala. Ele.
Os pensamentos tentavam se constituir, mas a densidade temporal era anti-constitucional, e os pensamentos e também os sentimentos mesclavam-se em mechas de tempo e no metal da bicicleta e no barro do muro e na carne que era dele.
Então chorou. Silenciosa a lágrima percorreu pele e carne e porosidades e espaços e lembranças. E fez-se memória e apagou-se-extinguindo-se no silêncio da terra. E não houve outra.
Só a bicicleta muda. E dizia tanto. E gritava tão alto. E o muro permanecia além do próprio muro,visto que agora era lembrança. E também a bicicleta. Verde. Não o muro. Este cinza e velho. Como ele.
Cinza e velho ele percebia o tempo, e a bicicleta e o muro. E se tudo era símbolo. Era ele símbolo. Fechou a mão lentamente e pode sentir o tempo pulsando dentro, e afundar-se na carne e mergulhar pra dentro do corpo. E tudo pulsava e tudo era quente.
Tudo era quente no silêncio da bicicleta.
O movimento já não era necessário. Assim como o muro resolvera ficar. Coisificar-se no tempo. Plantar-se.
Achava que os outros viam por janelas. Ele via fora de casa. Via tudo. E tudo era a bicicleta e o muro. Não havia ilusão, não havia ângulos, só a bicicleta e o muro pendurados no tempo, emoldurados no tempo. De onde estava ainda via os rostos pálidos das gentes que passavam pelas janelas. Viam a delimitação da janela, o limite do olhar e a ilusão do movimento. Não viam nada.
E foi tudo o que viram. Todos eles: Um velho sentado em frente a uma antiga bicicleta escorada a um muro ainda mais antigo que o velho. E só.




Copyright:


Relato:
©Ronie von Rosa Martins


Imagen:
"Los Sauces"
(Óleo sobre tela; medidas: 3D 60 x 80 cm).
Autor: ©Jordi Galbán


Publicado en este blog con el consentimiento de los autores:
www.literaturadart.blogspot.com



Prosas escogidas (V): Ronie von Rosa




OUTRO LADO
(relato en portugués)


Estavam todos. Como o dele. Ali. Pendurados-encravados-talhados na parede. Mesmos e iguais de olhos bocas e sorrisos tantos.
Tolas. E sorriam com dentes de argila e cimento. O sorriso coletivo pedia o dele. Ali também. Troféu.
E a parede ofegava. Arfava de emoção que estava e era.
Comer com dentes a carne singular e defecar pelos poros de sua instancia o rosto reconduzido, reformado. Emoldurado no senso; comum a todos.
Alisas todas as arestas. Moldado rosto. Formatado rosto. A cara de todos um.
E era o muro. E apertava a carne. Prosaica serpente. Muro. Murro na cara. Várias, tantos quanto necessário ao processo de docilização-domesticação-castração.
E eram as bocas todas que cantarolavam inocentes pequenos versos morais. Entre tremores labiais. A conformação do riso. Deterioração do ser riso.
Comprometidas visões. Parciais. Caricaturais.
Subtrair a carne. Arrancar o rosto. A cara. Do muro. Em urro em berro em dor. Subtrair o corpo da clausura. Furo, brecha, rachadura, fissura, fenda. Senda de possibilidades todas.
Diferença. Além da crença do rito do grito.
Pela fresta, buraco, vago, espaço da cabeça que não está. Esbraveja a criatura-muro, o poder se esvaindo no espaço que abraça o além do amém. Amem a segurança da pedra! Vocifera a fera. Amem o abraço da pedra. O afago da pedra. O carinho da pedra. Voltem pra caverna! Esconjurem Platão e toda ilusão!
Mas o corpo-carne-cara dele em pés e braços e pernas tantas e todas; novo corpo desgovernável parido pelo espaço que se produz na rua ganha todos os passos.
Impura rua além do muro. A antítese do muro corre, foge e luta. Em marcha que se distende, corpo que se pretende-lágrima que se desprende.
Mas eis que das outras caras todas. Seguras na estrutura ecoam. Profundas canções. Graves acusações.
–Tu! Tu! E salivavam conformidades ofendidas, seguranças ameaçadas. Cuspe. Argilosa baba.
–Tu! Tu! Móbil criatura. Nua criatura. Carne pura! Morre! No gesso do meu catarro!
Morre em estátua crua!
Morre em estátua crua!!
Te junta. Dissolve. Transforma. Volte ao barro-greda-argila-cimento-grade. Abandona a carne. Abraça a fome do muro. Ouve o murmúrio. Ouve o murmúrio!!! O murmúrio do tijolo. Ouça a sinfonia, o encanto, a poesia... O discurso do muro!
A antítese resiste. Osso-pele-poro-suor e dor. Solto. Salta, pula e escolhe a fresta-frincha espaço e mergulha. Agulha que trespassa. Trapaça a tessitura do muro. Agulha sem linha –só a de fuga.




Copyright:


Relato:
©Ronie von Rosa Martins


Imagen:
"Interiores" (Óleo sobre tela; medidas: 41 x 33 cm).
Autor: ©Jordi Galbán


Publicado en este blog con el consentimiento de los autores:
www.literaturadart.blogspot.com






Related Posts with Thumbnails

Espacios publicitarios: